Desordens Gastrointestinais Comuns em Idosos
Devido às alterações fisiológicas associadas ao envelhecimento, os idosos são mais propensos a desenvolver as seguintes desordens gastrointestinais:
· Refluxo Gastroesofágico (DRGE): O enfraquecimento do esfíncter esofágico inferior facilita o retorno do conteúdo ácido do estômago para o esôfago, causando azia e outros sintomas.
· Diverticulose e Diverticulite: A formação de pequenas bolsas (divertículos) na parede do cólon torna-se comum com o envelhecimento (diverticulose). A inflamação dessas bolsas leva à diverticulite, causando dor abdominal, febre e outros sintomas.
· Síndrome do Intestino Irritável (SII): Embora possa ocorrer em qualquer idade, os sintomas da SII, como dor abdominal, inchaço, gases, diarreia e constipação, podem persistir ou se agravar em idosos.
· Úlceras Pépticas: O uso frequente de medicações, principalmente anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), é mais comum entre idosos e pode aumentar o risco de úlceras no estômago e no duodeno.
· Pólipos Intestinais e Câncer Colorretal: A incidência de pólipos e de câncer colorretal aumenta significativamente com a idade.
· Má Absorção de Nutrientes: A redução das vilosidades intestinais afeta a absorção de nutrientes, como a vitamina B12, contribuindo para deficiências nutricionais.
· Hipocloridia: Com o envelhecimento, há uma redução na produção de ácido clorídrico (HCl) no estômago, que desempenha um papel crucial na digestão de proteínas, absorção de nutrientes e proteção contra bactérias patogênicas.
· Dispepsia Funcional: Sensação crônica de desconforto ou dor na parte superior do abdômen, sem causa orgânica aparente. O esvaziamento gástrico mais lento pode contribuir para essa condição em idosos e para a sensação de plenitude gástrica.
O comportamento alimentar na terceira idade envolve diversos fatores interligados, muitas vezes indo além da simples necessidade fisiológica de nutrientes. Compreender essa relação é essencial para que o idoso mantenha uma alimentação saudável.
A falta de companhia durante as refeições é um aspecto marcante, podendo diminuir o prazer de comer e levar à redução da ingestão alimentar. Além disso, a depressão e a ansiedade podem causar perda de apetite ou, em alguns casos, aumento do consumo de alimentos não saudáveis como forma de conforto. Outro fator relevante é a perda de autonomia para realizar atividades diárias, incluindo o preparo e consumo de alimentos, o que pode afetar o interesse pela comida. Eventos como aposentadoria, viuvez e saída dos filhos de casa podem modificar rotinas e hábitos alimentares.
Dificuldades financeiras também impactam a nutrição do idoso, podendo causar insegurança alimentar e dificultar a compra de alimentos nutritivos, levando a escolhas inadequadas. Fatores cognitivos, como demência, confusão mental e dificuldade em reconhecer os sinais de fome e saciedade, podem resultar na redução da ingestão calórica e em horários de refeição irregulares, influenciando negativamente o estado nutricional.
Além da questão financeira, outra dificuldade é a mastigação, especialmente de alimentos mais duros, como carnes e outras proteínas. Isso faz com que muitos idosos optem por alimentos macios e cremosos, frequentemente ultraprocessados e de menor valor nutricional
A avaliação física no idoso possui diversas dificuldades as alterações corporais, da idade, parâmetros bioquímicos e presença de doenças, uso de medicamentos e fatores psicossociais. Sendo importante para detectar riscos de desnutrição ou obesidade, monitorar a eficácia de intervenções nutricionais e fornecer informações para o planejamento de cuidados individualizados
5.3.1 Exame Físico:
Avaliação da composição corporal:
· Peso: Alguns idosos podem ter dificuldade para caminhar até a balança, sendo ideal o uso de uma balança de base larga. Caso isso não seja possível, pode-se utilizar uma cadeira na balança, tarar o equipamento e, em seguida, pesar o idoso.
· Altura: O idoso apresenta redução da estatura de aproximadamente 1 a 2,5 cm. A medição pode ser realizada com estadiômetro ou fita métrica, considerando a dificuldade de alguns idosos em permanecer totalmente eretos. Em casos em que não seja possível medir a altura diretamente, podem ser utilizadas estimativas baseadas no comprimento do braço, na altura do joelho ou na envergadura, que é aferida com os braços do paciente estendidos em um ângulo de 90º em relação ao corpo.
· Altura do joelho: A aferição da altura do joelho é realizada com o idoso em posição supina e o joelho dobrado em um ângulo de 90º. O comprimento é medido entre a planta do pé e a superfície anterior da perna, na altura do joelho.

· Índice de Massa Corporal (IMC): Calculado com peso (kg) / altura (m)². Os pontos de corte para idosos são diferentes dos adultos mais jovens.

· Circunferência da cintura (CC): Medida na menor circunferência entre a última costela e a crista ilíaca. É um indicador de gordura abdominal e risco metabólico.
Exame físico
O exame físico busca avaliar carências nutricionais, incluindo sinais de desnutrição.
· Proteínas séricas: Albumina e pré-albumina (transtirretina) são indicadores do estado nutricional proteico, embora possam ser influenciados por inflamação e hidratação. A pré-albumina possui uma meia-vida mais curta e pode ser mais sensível a mudanças recentes no estado nutricional.
5.3.2 Avaliação Subjetiva Global (ASG):
Trata-se de um método semi-quantitativo que combina informações do histórico (perda de peso, mudanças na ingestão alimentar, sintomas gastrointestinais e capacidade funcional) com dados do exame físico (perda de gordura subcutânea, perda de massa muscular, edema e ascite).
Esse método classifica o estado nutricional do idoso em bem nutrido, moderadamente nutrido, suspeito de desnutrição ou gravemente desnutrido, sendo uma abordagem simples, não invasiva e eficaz para identificar idosos em risco de desnutrição. A interpretação dos dados obtidos na avaliação física nutricional deve ser realizada de forma integrada, considerando todos os componentes.
O objetivo é identificar:
• O estado nutricional atual do idoso.
• A presença de deficiências nutricionais específicas.
• O risco de desnutrição ou outras complicações relacionadas à nutrição.
• Os fatores que contribuem para o estado nutricional inadequado.
Com base nessa avaliação, um plano nutricional individualizado deve ser elaborado.
Macronutrientes:
- Proteínas: Recomenda-se uma ingestão de 1,0 a 1,2 gramas de proteína por kg de peso corporal por dia para manter a massa muscular, a força e a função imunológica. Em situações de doença aguda ou crônica, essa necessidade pode aumentar para 1,2 a 1,5 g/kg/dia. Boas fontes incluem carnes magras, peixes, ovos, laticínios e leguminosas.
- Carboidratos: Devem constituir 45% a 65% da ingestão calórica total, com ênfase em carboidratos complexos e não refinados, como grãos integrais, frutas e vegetais. A ingestão de fibras é particularmente importante para a saúde intestinal, controle glicêmico e prevenção de doenças cardiovasculares, com recomendações de 30g/dia para homens e 21g/dia para mulheres com mais de 50 anos.
- Gorduras: A ingestão de gorduras deve representar 20% a 35% da ingestão calórica total, priorizando gorduras insaturadas (mono e poli-insaturadas), presentes em azeite de oliva, abacate, oleaginosas e peixes ricos em ômega-3.
- Hidratação: A recomendação é de 30 mL/kg/dia.
Micronutrientes:
· Vitamina B12: A absorção pode ser reduzida com a idade devido à diminuição do ácido gástrico e do fator intrínseco. A recomendação é de 2,4 mcg/dia, sendo necessária, em alguns casos, a suplementação ou o consumo de alimentos fortificados.
5.3 Cuidados Nutricionais do Idoso
Os alimentos produzidos para idosos devem passar por adequações conforme suas necessidades específicas. Para avaliar essas necessidades, é essencial responder às seguintes perguntas:
Caso sejam necessários ajustes para facilitar a adequação da ingestão alimentar, algumas estratégias podem ser adotadas, como:
1. Idoso com 55 kg e 1,50. Calcule o IMC e classifique seu estado nutricional.
2. Considerando as mudanças fisiológicas comuns no processo de envelhecimento, quais são as principais recomendações nutricionais específicas para idosos, visando a manutenção da saúde, da funcionalidade e a prevenção de deficiências nutricionais?
· Avaliação nutricional em idosos: Uma revisão integrativa: https://www.researchgate.net/profile/Debora-Pinheiro-8/publication/374396011_Avaliacao_nutricional_em_idosos_uma_revisao_integrativa/links/65427cf5ff8d8f507ce1f9b4/Avaliacao-nutricional-em-idosos-uma-revisao-integrativa.pdf
· Depressão em idosos: um estudo de revisão bibliográfica de 2013 a 2020: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/30429/26070
A disciplina Nutrição nos Ciclos da Vida permite aos profissionais nutricionistas compreender as bases da nutrição em cada etapa da vida, além de destacar a importância da alimentação para o desenvolvimento, a prevenção de doenças e estratégias práticas para uma alimentação saudável. Também aborda a influência de fatores externos à nutrição, como aspectos socioeconômicos, culturais e ambientais, e, sobretudo, o papel do nutricionista em diversos âmbitos e fases da vida.
As diversas referências, artigos e descrições apresentadas neste material servem como uma base inicial, mas é essencial que o aluno expanda seu conhecimento por meio de outras obras, leituras e pesquisas. Nosso objetivo foi fornecer as ferramentas necessárias para a compreensão da dinâmica da nutrição ao longo da vida, capacitando-o a tomar decisões mais informadas sobre alimentação e saúde em diferentes fases da vida.
Que o conhecimento adquirido aqui sirva como um guia valioso para promover a saúde e o bem-estar em todas as fases da jornada humana. O aprendizado sobre nutrição é um processo contínuo—não parem por aqui! Sigam, explorem e aprofundem-se no vasto universo de conhecimentos que a nutrição pode proporcionar.
“Educação não transforma o mundo, educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Paulo Freire
Básica
Krause: Alimentos, nutrição e dietoterapia. 13ª edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. MOREIRA, E.A.M.; CHIARELLO, P. G. Nutrição e Metabolismo: Atenção Nutricional - Abordagem Dietoterápica em Adultos.
. • VÍTOLO, Márcia Regina. Nutrição: da gestação ao envelhecimento. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2008. 322 p.
• ACCIOLY, Elizabeth; SAUNDERS, Cláudia; LACERDA, Elisa Maria de Aquino. Nutrição em Obstetrícia e Pediatria. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 2012. 656p.
• CARDOSO, Ary Lopes; LOPES, Luís Anderson; TADDEI, José Augusto de A.C. Tópicos atuais em nutrição pediátrica. São Paulo: Atheneu,2004. 184p
Complementar
• BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Coordenação-Geral da Política de Alimentação e Nutrição. Guia Alimentar para crianças menores de 2 anos., Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2019. 76p.
BRASIL. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da Criança: Nutrição Infantil – Aleitamento materno e alimentação complementar. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2009, 112p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 23)
Melo CM de, Tirapegui J, Ribeiro SML. Gasto energético corporal: conceitos, formas de avaliação e sua relação com a obesidade. Arq Bras Endocrinol Metab [Internet]. 2008Apr;52(3):452–64. Available from: https://doi.org/10.1590/S0004-27302008000300005